sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Elvis Presley - Peace In The Valley

Quando o compacto duplo Peace In The Valley apareceu nas lojas americanas em abril de 1957 a imprensa torceu o nariz para o lançamento! “Elvis Presley, aquele roqueiro, agora cantando músicas religiosas? Quem ele pensa que está enganando?” Infelizmente não é de hoje que a chamada grande imprensa mostra desconhecimento de causa em relação a Elvis Presley. O jornalista dos grandes meios de comunicação quase sempre é um “generalista”, um sujeito que sabe pouco sobre muita coisa e muita coisa de praticamente nada! Assim também foi com Elvis. Focados apenas no lado roqueiro do jovem Elvis eles desconheciam completamente sua trajetória, suas raízes musicais e seu lado mais espiritual. Ignoravam por exemplo que um dos grandes sonhos de Elvis sempre foi o de participar de um quarteto gospel e de que ele, mesmo quando participava de sessões comuns e regulares, sempre se aquecia cantando o mais puro gospel de sua infância e juventude. Até mesmo no dia a dia Presley gostava de se ver envolvido com a música religiosa. Mesmo famoso não perdia seus programas de rádio preferidos onde a programação geralmente girava em torno desse estilo musical.

Quando voltou aos estúdios para “encher a lata”, ou seja, gravar novas músicas para a RCA Victor, Elvis aos poucos foi gravando canções religiosas. Nada havia sido previamente programado sobre isso mas entre uma música convencional e outra Elvis foi registrando algumas canções gospel. Uma aqui, outra acolá, como quem não queria nada. Ele estava empolgado com a ótima repercussão de sua apresentação de “Peace in The Valley” no programa de Ed Sullivan algumas semanas antes então por que não gravar algumas músicas nesse estilo? Poderia dar certo, quem sabe. O ideal seria a gravação de quatro músicas para compor um compacto duplo e assim Elvis o fez. Obviamente esse tipo de música nada tinha a ver com imagem pública que ele tinha entre o grande público naquela época. Para a massa Elvis Presley era um roqueiro com brilhantina no cabelo que no palco rebolava de forma indecente e escandalosa! Nada, absolutamente nada a ver com um cantor religioso de baladas espirituais.

A verdade era que o homem Elvis Presley tinha pouco a ver com sua imagem pública. Enquanto todos pensavam que ele era um selvagem ao estilo dos personagens de Marlon Brando e James Dean no cinema, Elvis era apenas um rapaz jovem tentando subir na vida para dar uma vida melhor aos seus pais. Calmo, tímido até, não ousava falar palavrões em casa diante de Gladys e nem de Vernon Presley. Caseiro e apegado com sua mãe sempre ligava para ela onde quer que estivesse para dizer que tinha feito boa viagem e estava tudo bem. Enfim, o oposto do demônio delinquente juvenil que imaginavam dele.  De certa forma esse compacto duplo era a realização de um velho sonho de Presley, a de ser um cantor gospel, de levar suas músicas preferidas para sua imensa legião de fãs, sempre nesse processo levando também uma mensagem de espiritualidade e religiosidade a todos os seus admiradores. Uma postura muito digna e adequada, diga-se de passagem. Esse tipo de trabalho sempre enchia Elvis de orgulho pessoal e ele sempre encontraria um jeito dali em diante de encaixar algo nesse estilo em seus shows e discos. Quando chegou nas lojas o resultado foi considerado muito bom. Elvis colocou um pé no mercado gospel,  um dos mais influentes e ricos da sociedade americana, ao mesmo tempo em que sua imagem foi bem melhorada diante dos setores mais conservadores do país. Um saldo final muito positivo. As canções que fizeram parte desse compacto duplo foram essas:

Peace In The Valley (Thomas A. Dorsey) – Escrita em 1939 para a grande cantora Mahalia Jackson. Essa era uma música que tocava fundo na alma de Elvis porque lembrava a ele sua infância na pequena Tupelo no vizinho Estado do Mississippi onde nasceu. Quando a canção estourou nas rádios ele tinha apenas 4 anos de idade, o que ajudou a criar uma lembrança afetiva da música em sua vida. Interessante é que Elvis foi o mais fiel possível ao disco original de Jackson. Até nos mínimos detalhes – como a guitarra solando ao fundo – Elvis tentou reproduzir em seu registro. O acompanhamento vocal é praticamente o mesmo, mostrando que Elvis queria mesmo uma gravação fiel à antiga versão. Uma postura de respeito com a versão original, sem dúvida. A letra, como não poderia deixar de ser, é evocativa a um lugar imaginário onde haveria paz, onde os lobos seriam mansos e os ursos gentis. Uma metáfora do céu e do paraíso prometido aos bons cristãos que levassem uma vida digna e correta. Bem escrita a canção entrou na galeria das mais queridas entre os evangélicos do sul dos Estados Unidos. A versão oficial de Elvis foi gravada no dia 13 de janeiro de 1957 em Hollywood nos estúdios Radio Recorders.

It Is No Secret (Stuart Hamblem) - A versão original foi lançada em 1950 pelo cantor religioso Bill Kenney e o grupo The Ink Spots. A canção foi composta pelo cowboy cantor Stuart Hambleim que era muito popular por seu famoso programa de rádio – que era ouvido também pelo garoto Elvis e sua mãe Gladys nos primeiros dias da família Presley em Memphis. Hambleim se tornou muito conhecido por causa dos temas que escreveu para os grandes nomes do faroeste americano como Gene Autry, Roy Rogers e John Wayne. Anos depois decidiu seguir uma linha mais evangélica, completamente centrada em músicas religiosas e “It Is No Secret” faz parte dessa sua nova fase de vida. A versão de Elvis tem um toque mais moderno se formos comparar com a versão original. Aqui ele quis certamente melhorar um pouco em relação ao disco original. Sua visão da canção ficou pronta no dia 19 de janeiro de 1957, logo após Elvis finalizar a trilha sonora daquele que seria seu novo filme, “Loving You”.

I Believe (Drake / Graham / Shirl / Stillman)  - Extremamente emocional para Elvis, essa música ganha em grandiosidade e emoção, principalmente porque notamos nitidamente como ele se entregava completamente, de corpo e espírito, a esse sentimento religioso. Música Gospel sempre teve um significado muito grande para Elvis, provavelmente foi o primeiro tipo de canção que ele ouviu, nos cultos da assembleia de Deus, do qual fazia parte. Tinha um carinho especial por elas tendo gravado três discos exclusivamente com este gênero musical no decorrer de sua carreira: "His Hand in Mine" em 1960, "How Great Thou Art" em 1967 e "He Touched Me" em 1972. Curiosamente todos os prêmios Grammy da carreira de Elvis Presley lhes foram dados por seus trabalhos religiosos!

Take My Hand Precious Lord (Thomas A Dorsey)  - Outra música composta por Thomas Dorsey, "Take My Hand Precious Lord" foi particularmente complicada de finalizar. Depois de várias tentativas Elvis se deu por satisfeito e após ouvir todos os takes da sessão escolheu a que melhor lhe agradava. Mas intimamente, como confidenciou a Scotty Moore, não ficou muito certo sobre a escolha. Isso demonstra como Elvis trabalhava fixamente e arduamente sobre uma canção até achar a versão definitiva. Estas quatro canções incluídas em "Peace In The Valley" foram a materialização de um dos sonhos de infância de Elvis, pois desde de criança ele almejava ser cantor de músicas religiosas. É certo pelos registros que Elvis certamente deu o melhor de si. Ele ainda não tinha o pleno domínio vocal que iria adquirir ao longo dos anos mas isso em nada prejudicou ou maculou o resultado final, pelo contrário, mostrou que definitivamente ele não era apenas um cantorzinho para consumo jovem, um mero ídolo adolescente. Era na realidade um dos melhores intérpretes surgidos dentro da música americana, algo que provaria nos anos seguintes. Um talento inigualável certamente.

Elvis Presley - Peace In The Valley (1957) - Elvis Presley (voz e violão) / Scotty Moore (guitarra) / Bill Black (baixo) / D.J.Fontana (bateria) / Gordon Stoker (piano) / Dudley Brooks (piano) / Hoyt Hawkins (órgão) / Jordanaires (acompanhamento vocal) / Produzido por Steve Sholes / Arranjado por Elvis Presley e Steve Sholes / Gravado nos estúdios Radio Recorders - Hollywood / Data de Gravação: 12 a 13 de janeiro de 1957 e 19 de janeiro de 1957 / Data de Lançamento: abril de 1957 / Melhor posição nas charts: #39 (EUA) # - (UK).

Pablo Aluísio.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Elvis Presley - Just For You

Elvis Presley - Just For You
Poucos dias depois que o compacto duplo "Peace In The Valley" chegou nas lojas americanas a RCA Victor lançou no mercado outro compacto, igualmente duplo, apenas com músicas inéditas gravadas por Elvis Presley. O mercado de fato esperava por um novo single depois do grande sucesso de "All Shook Up", mas isso definitivamente não aconteceu. A razão é que os executivos da gravadora após ouvirem as novas faixas que Elvis havia gravado no Radio Recorders chegaram na conclusão que nenhuma delas tinha força suficiente para estourar nas paradas. Eram boas canções sim, bem gravadas e tudo o mais, porém não tinham vocação para virarem hits na Billboard. Excesso de zelo? Falta de confiança no novo material? Em parte sim. Realmente os engravatados da Victor não estavam errados. Elvis vinha de "All Shook Up", um tremendo sucesso e não seria interessante ver seu novo single ficar para trás nas principais paradas. A decisão então foi reunir quatro das novas músicas para lançamento no mercado em forma de Extended Play (o nome americano para o nosso compacto duplo).

A direção de arte da capa reciclou uma foto que havia sido tirada para fazer parte da capa do segundo álbum do cantor no ano anterior. Elvis inclusive está com a mesma camisa, o mesmo violão e no fundo o mesmo cenário. A única diferença é que ele está usando um casaco vermelho bem chamativo. A contracapa repetia o que era praxe na época: uma mera lista promocional de outros compactos duplos da RCA Victor nas lojas. Estão lá os nomes dos novos disquinhos de Perry Como, Harry Belafonte, Chet Atkins, Eddie Fisher, Glenn Miller, Eddy Arnold, entre outros. Na época isso era considerada mera propaganda, mas hoje em dia esse tipo de informação não deixa de ter um charme extra pois ficamos sabendo quais artistas estavam no mercado fazendo concorrência a Elvis. E foi justamente essa disputa feroz no mercado que fez com que a RCA lançasse esse "Just For You". A trilha sonora de "Loving You" só chegaria aos fãs no meio do ano e para evitar que Elvis ficasse vários meses sem nada de inédito nas lojas a gravadora se apressou em colocar no mercado o disco.

O curioso em "Just For You" é que ele logo se tornaria obsoleto para os colecionadores. Como vinha um novo filme de Elvis por aí nos cinemas, a RCA decidiu reaproveitar todas essas faixas para colocá-las no Lado B do álbum da nova trilha sonora. Os fãs que compraram o compacto logo tiveram que gastar dinheiro novamente com as mesmas músicas que voltavam no LP "Loving You". Era a velha estratégia do Coronel Parker de vender a mesma coisa duas vezes, algo que ele aprendeu muito bem em seus dias de circo. Assim todas as faixas de Just For You acabaram se tornando as primeiras “bonus songs” das trilhas sonoras de Elvis Presley. O que eram "Bônus Songs"? Basicamente eram gravações de Elvis que não faziam parte dos filmes, mas que eram incluídas no álbuns das trilhas para completa-las. Geralmente as trilhas de Elvis tinham de seis a sete canções e eram insuficientes para ocupar todo o espaço de um antigo LP. Dessa maneira as Bônus Songs eram adicionadas, se completando as dez ou doze faixas necessárias. Todos os artistas da época faziam isso e com Elvis não seria diferente.

O carro chefe de Just For You era a boa "I Need You So". Uma balada sentimental que apesar de bem executada nunca conseguiu boa repercussão. Completando o lado A temos o country "Have I Told You Lately That I Love You" cujo destaque é a boa sonorização do grupo vocal The Jordanaires. Por essa época eles já estavam completamente entrosados com Elvis e essa simbiose já surgia perfeitamente nos registros. Já o lado B abria com a deliciosa "Blueberry Hill". Falaremos melhor sobre ela quando formos analisar a trilha de "Loving You", mas de antemão quero dizer que é uma pena que a RCA nunca tenha trabalhado melhor nessa música. Eu a considero excelente. Seu potencial de virar hit na época já havia se esgotado pois ela já tinha feito sucesso na voz de outros cantores, porém mesmo assim merecia melhor destino certamente. "Just For You" fecha com outra boa balada," Is It So Strange", uma bela canção que também nunca encontrou bom espaço dentro da discografia de Elvis. Ela reaparecia anos depois no álbum "A Date With Elvis" quando o cantor estava servindo o exército americano na Alemanha.

Quando chegou no mercado "Just For You" surpreendeu e conseguiu emplacar um ótimo segundo lugar entre os compactos duplos mais vendidos. Isso incentivou a RCA a lançar novos EPs de Elvis nos anos seguintes, disquinhos que só deixariam mesmo de serem lançados por volta de 1966 quando a RCA lançou as últimas trilhas sonoras de Elvis nesse formato. Não se preocupe, ainda falaremos muitos sobre esses charmosos vinis que marcaram a discografia de Elvis Presley. Até lá.

Elvis Presley - Just For You (1957)
I Need you So
Have I Told You Lately That I Love You
Blueberry Hill
Is It So Strange

Elvis Presley – Just For You (1957) / Elvis Presley (voz e violão) / Scotty Moore (guitarra) / Bill Black (baixo) / D.J.Fontana (bateria) / Gordon Stoker (piano) / Dudley Brooks (piano) / Hoyt Hawkins (órgão) / Jordanaires (acompanhamento vocal) / Produzido por Steve Sholes / Arranjado por Elvis Presley e Steve Sholes / Gravado nos estúdios Radio Recorders - Hollywood / Data de Gravação: 18 e 19 de janeiro de 1957 / Data de Lançamento: abril de 1957 / Melhor posição nas charts: #2 (EUA).

Pablo Aluísio.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Elvis Presley - Volume 1

Elvis Presley - Volume 1
Esse é o nosso primeiro livro sobre Elvis Presley. Esse volume 1 traz muitas informações sobre os primeiros discos e filmes da carreira de Elvis. Será uma coleção de livros sobre Elvis daqui em diante. Nosso plano é de lançar um novo volume a cada seis meses, para no final termos uma coleção completa de textos sobre o cantor. Um material realmente muito bom. Abaixo segue a sinopse do livro e os endereços para adquirir seu exemplar. 

Elvis Presley
Nesse primeiro volume escrito por Pablo Aluísio, o leitor é apresentado aos primeiros discos e filmes da carreira de Elvis Presley. Um resgate com muitas informações, fruto de uma pesquisa que durou anos por parte de seu autor. Essa é a história do jovem artista que revolucionou o mundo da música desde os seus primeiros anos de fama, sucesso e impacto cultural. 

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Pablo Aluísio. 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Elvis Presley - Loving You (1957)

LOVING YOU (1957) -
Primeira trilha sonora de Elvis Presley em formato de Long Playing (LP) contendo as músicas do filme "Loving You" da Paramount Pictures. A trilha sonora do filme anterior de Elvis, "Love Me Tender", só havia sido lançada em um compacto duplo. Como Tom Parker não dava ponto sem nó, ele logo viu que seria muito mais lucrativo colocar todas as canções em um disco inteiro. Como a duração da trilha sonora do filme não era suficiente para preencher todo o espaço de um LP, Parker colocou canções inéditas gravadas em estúdio no lado B. Essas seriam as primeiras "Bônus Songs" da carreira de Elvis. No Brasil o filme recebeu o título de "A mulher que eu amo" nos cinemas e posteriormente quando passou na TV recebeu o título de "Perdidos na Cidade". Ao contrário de "Love Me Tender" em que Elvis era apenas um dos atores que chegaram após o projeto do filme estar pronto, "Loving You" foi totalmente planejado para o cantor estrelar. Os produtores elaboraram então a fórmula "Elvis" de fazer filmes: muita música, roteiro escapista e de acordo com o gosto médio do público jovem da época. Essa forma de fazer filmes iria se desgastar ao longo do tempo, mas em 1957 ainda era uma grande novidade. O Público adorou e lotou os cinemas. Todos queriam ver a nova sensação da música mundial.

Em "Love Me Tender" as músicas foram colocadas no último minuto, o filme, um western convencional, nem tinha canções em seu roteiro original, mas como Elvis era um nome quente em 1956, os diretores musicais da 20th Century Fox se apressaram em colocar 4 músicas para Elvis cantar em cima da hora! Mas com "Loving You" as coisas fluíram de forma diferente. O roteiro já nasceu pronto para Elvis, toda a trilha foi composta especialmente para ele. Elvis estava no auge e as coisas não poderiam sair de outra forma. "Loving You" hoje é considerado um dos clássicos do Rei, um símbolo do cinema jovem feito nos anos 50, cujo roteiro foi levemente inspirado na própria história do cantor. Nada muito dramático, ao contrário, muito leve e soft. Até mesmo porque ninguém queria ver Elvis estrelar um dramalhão! Com "Loving You" Hollywood abriu definitivamente as portas para Elvis Presley. A parceria iria durar 16 anos e Elvis só iria se despedir do cinema em 1972 com o documentário "Elvis On Tour".

Durante todo esse tempo muitos filmes seriam produzidos, com tudo o que de bom e ruim que os estúdios tinham a oferecer para o cantor. "Loving You" é um grande sucesso de Elvis nos cinemas, um filme que abriu caminho para todas as produções posteriores dele. Para fazer par principal com o Rei do Rock a Paramount escalou uma starlet em ascensão: Dolores Hart. A atriz que contracenou com Elvis tinha uma promissora carreira em Hollywood. Era uma das mais prestigiadas atrizes jovens e poderia ter se tornado um nome famoso com essas produções. Mas, para surpresa de todos, abandonou a vida do cinema para se dedicar totalmente à religião, se tornado freira em uma ordem católica. De qualquer forma Dolores levou seu prêmio por "Loving You", pois ela foi a primeira atriz a beijar Elvis em cena. Estas são as canções do Long Playing "Loving You" (LPM 1515):

MEAN WOMAN BLUES (Claude DeMetrius) - Um dia depois de registrar um de seus maiores sucessos de sua carreira, "All Shook Up", Elvis entrava no Radio Recorders para gravar "Mean Woman Blues". Na verdade a canção nem foi feita especialmente para o filme, mas foi aproveitada por seu potencial cênico, aonde Elvis poderia desenvolver com desenvoltura seus requebros. Esse é um blues visceral cantado por Elvis em um determinado momento da película, passado numa lanchonete típica dos anos 50. em que ele é desafiado a provar seu talento para os jovens presentes à mesa por um caricato vilão de filmes adolescentes. Termina com a inevitável briga entre o Rei e seu oponente. A dança apresentada se tornou um dos momentos antológicos da carreira cinematográfica de Elvis, mesmo que depois tenha sido criticada por causa do posicionamento da câmera principal, que focalizou Elvis de forma errada, pois pendurado na parede atrás do cantor havia um grande par de chifres de alce. Para alguns observadores, algumas tomadas de cena colocaram Elvis em uma posição no mínimo inusitada. Pois em alguns momentos os chifres se encaixam perfeitamente com sua cabeça, dando a impressão de que o diretor quis de forma deliberada colocar "chifres" em Elvis! Cada coisa que esse pessoal percebe, convenhamos... Apesar de todas as lendas urbanas envolvendo a cena, o veredito é um só: grande cena, grande música.

(Let Me Be Your) TEDDY BEAR (Kall Mann / Bernie Lowe) - No auge do sucesso de Elvis correu um boato que ele adorava ursinhos de pelúcia. Apesar de não ser verdade o boato ganhou força e de um momento para o outro o cantor se viu num mar de bichinhos dados pelos seus fãs. Em uma entrevista Elvis afirmou que tinha guardado todos em sua casa! Para aproveitar esta história foi composto este grande sucesso, que alcançou o primeiro lugar da parada de singles da revista Billboard com "Loving You" no lado B. O single foi um campeão absoluto de vendas quando foi lançado em junho de 1957. Assim como "Mean Woman Blues", "Teddy Bear" também não fez parte das sessões de gravação da trilha sonorda do filme "Loving You". Ela foi registrada dias depois em uma sessão que só foi realizada para Elvis gravá-la. Nesse mesmo dia Presley ainda gravou uma versão "envenenada e maldita" de "One Night" chamada "One Night Of Sin". Esse take alternativo acabou se tornando bem badalado após a morte do cantor. Curiosidade: o "Teddy", nome dado ao ursinho é uma homenagem ao presidente americano Theodore Roosevelt, conhecido por suas caçadas e espírito aventureiro.

LOVING YOU (Jerry Leiber / Mike Stoller) - Música título do filme que foi gravada em três arranjos diferentes: uma versão acústica para uma determinada cena do filme, em balanço blues e a versão clássica, conhecido por todos, lenta e romântica, que está presente neste LP. A razão para tantas versões é a determinação dos diretores musicais da Paramount para que fosse gravada variações diferentes para a aprovação final do estúdio. Além disso deveria haver takes de "Loving You" suficientes para utilizar em material promocional, como trailers, divulgação em rádios, etc. Aliás "Loving You" acabou se tornando um problema para Elvis. Muitos dos takes produzidos nas sessões de janeiro de 57 foram rejeitados pela Paramount. Então Elvis deve que voltar várias vezes aos estúdios para regravar grande parte do material, tanto que a versão definitiva de "Loving You" só saiu mesmo dia 24 de fevereiro. Mesmo assim Elvis não estava completamente seguro de que aquela seria a versão ideal. Mas sem mais tempo a RCA Victor resolveu lançá-la mesmo no single junto com "Teddy Bear". O single, como já foi escrito aqui, fez grande sucesso e novamente mostrou que seus compositores, Leiber e Stoller, se firmavam cada vez mais como os principais escritores de Elvis. A música em si possui melodia e letra simples, ideal para os corações juvenis dos anos cinqüenta.

GOT A LOT O'LIVIN TO DO (Aaron Schroder / Bernie Weisman) - Ponto alto tanto no filme em que Elvis a apresenta em uma de suas melhores performances, como no disco, pois a canção é um Rock'n'Roll vibrante e empolgante. Para a cena do filme Elvis chamou seus pais para participarem como figurantes na plateia. Visualiza-se facilmente Gladys Presley, sua mãe, de roupa azul, sentada entre o público, batendo palmas ao lado do filho. Elvis fez questão que sua mãe estivesse com ele em Hollywood. Queria lhe dar o melhor, hospedá-la em hotéis de luxo e dar todo o tratamento vip que ela nunca teve na vida. Elvis queria acima de tudo cercá-la do bom e do melhor. Gladys era a força moral e espiritual que Elvis sempre podia contar. Com a morte de sua mãe, meses depois, "Loving You" se tornou um filme muito doloroso de assistir para Elvis, pois a lembrança de sua mãe ali ao seu lado seria mais presente do que nunca. Para evitar a depressão de ver novamente Gladys em cena ao seu lado, Elvis tomou uma atitude drástica: baniu de uma vez por todas o filme de sua vida. Se recusou sempre a assisti-lo novamente e nunca mais nem ao menos voltou a ouvir a trilha sonora, segundo seus amigos da máfia de Memphis. Ele se sentiu profundamente deprimido pela morte da mãe e segundo seus amigos mais íntimos nunca mais se recuperou desta perda.

LONESOME COWBOY (Sid Tepper / Roy Bennet) - Esta canção foi composta inicialmente para ser o tema título da trilha sonora do segundo filme de Elvis pois ele iria se chamar "Lonesome Cowboy". Mas esse projeto inicial foi mudado pelos executivos da Paramount. Primeiro porque outro western poderia levar alguns a confundir o novo filme com "Love Me Tender" e segundo porque era mais importante colocar Elvis em um tema mais atual e urbano, que falasse mais diretamente com o público alvo de Elvis: os jovens. A música ficou e foi encaixada em uma cena com Elvis devidamente vestido à caráter. Apesar de apresentar um bom ritmo e certa fluência, percebe-se claramente que seu arranjo ficou um pouco confuso, no meio termo entre a pretensão e a simplicidade. O resultado final acabou não indo para nenhum lado, transformando tudo numa grande confusão rítmica. "Lonesome Cowboy" foi uma das únicas músicas aproveitadas das sessões de janeiro para a Paramount. Todas as outras, ou foram descartadas ou então regravadas por Elvis depois. Esta dupla de compositores seria responsável por uma das melhores trilhas sonoras da carreira de Elvis nos anos sessenta: "G.I.Blues" (saudades de um pracinha, 1960).

HOT DOG (Jerry Leiber / Mike Stoller) - Pequena pérola composta pelos sempre ótimos Leiber e Stoller. Não confundir com "Hound Dog" dos mesmos compositores. Esta dupla foi importantíssima para a carreira do Rei do Rock, mas nunca se deram bem com o Coronel Parker. Além de cobrarem bem mais do que os demais escritores possuíam opiniões próprias que se chocavam com o próprio ponto de vista de Parker. Uma das ideias sugeridas por Leiber e Stoller a Elvis foi a realização de um musical na Broadway estrelada pelo próprio cantor. Elvis gostou muito da ideia pois teria oportunidade de atuar e o mais importante, de dançar e desenvolver novas coreografias. Apesar da ideia ter sido recebida com entusiasmo por Elvis logo foi abandonada, pois o Coronel convenceu o cantor que tal projeto "poderia ser prejudicial à sua carreira"! Esse e outros incidentes entre Parker e os autores acabaram causando o afastamento definitivo deles da carreira de Elvis em meados dos anos 60. Sem dúvida uma grande perda para o cantor.

PARTY (Jesse Mac Robinson) - Fechando o antigo lado A do LP e a parte referente aos trabalhos relativos ao filme temos esta música que cumpre seu papel de forma eficiente, parecendo até mesmo uma continuação de "Hot Dog". Ambas foram gravadas nas mesmas sessões realizadas em janeiro de 1957 no estúdios Radio Recorders em Hollywood. Apesar de ensaiar e gravar quase todos os temas da trilha sonora nessas sessões, a RCA só aproveitou como oficiais as versões de "Party", "Hot Dog" e "Lonesome Cowaboy". Todas as demais foram arquivadas ou rejeitadas pelos produtores. Muitos desses registros inclusive foram perdidos. "Party" não teve uma grande repercussão na época, era apenas um bom rock em uma época em que Elvis só estava gravando verdadeiros hinos desse ritmo. Porém ela não foi esquecida como bem demonstrou Paul McCartney em seu disco "Run Devil Run" onde ele gravou uma nova versão deste verdadeiro hino do Rock'n'Roll mundial. Um merecido reconhecimento, sem dúvida.

BLUEBERRY HILL (Rose / Lewis / Stock) - Música que abria o antigo Lado B da trilha sonora, em sua versão norte-americana. A primeira "Bonus Song" da carreira de Elvis Presley. Essa denominação era usada para músicas que não faziam parte da trilha sonora mas que eram colocadas nos LPs para completá-los cronologicamente. Uma das mais deliciosas canções dos anos 50. Se tornou bastante popular graças ao cantor e compositor de New Orleans, Fats Domino. Fats era um roqueiro atípico, primeiro porque sua vida foi um mar de tranquilidade, sem escândalos ou manchetes sensacionalistas na imprensa marrom. Segundo porque, ao contrário dos demais astros da primeira geração de roqueiros, não viu sua carreira afundar na virada da década de 50 para a de 60. Outro aspecto interessante em Fats Domino foi que ele foi um dos primeiros rockstars a irem para Las Vegas, na época considerada uma cidade fora de rota para os cantores jovens por causa do público envelhecido que frequentava os cassinos da cidade. Muito anos antes de Elvis ir de forma definitiva para Vegas, Fats já se apresentava regularmente naquela cidade. Aqui Elvis interpreta o maior sucesso de Domino, e por sua vez não deixa por menos e protagoniza uma versão de alto nível. O mais puro som dos anos 50 está aqui!.

TRUE LOVE (Porter) - Aqui Elvis Presley interpreta uma canção escrita por um dos maiores nomes da música norte americana, o músico e compositor Cole Porter. Esta canção fez parte da trilha sonora do clássico filme "Alta Sociedade", protagonizado por Bing Crosby, Frank Sinatra e Grace Kelly alguns anos antes. Inclusive Frank Sinatra gravou um disco inteiro só com canções de Cole Porter chamado "Sinatra Sings The Select Cole Porter", trabalho musical maravilhoso e obrigatório. Já Elvis apenas entrou em contato timidamente com Porter. Como era um astro jovem e Porter exigia maior sofisticação não era muito conveniente para Presley se envolver em demasia com um autor que era o preferido de Sinatra, que por sua vez detestava a turma roqueira da época.

DON'T LEAVE ME NOW (Schroeder / Weisman) - Outra "Bonus Song" que apesar de bem gravada e executada passou despercebida no lançamento do disco. Romântica e com indisfarçável gosto country a música ficaria muito bem no repertório de um Hank Williams, por exemplo. Elvis voltaria ao estúdio mais uma vez e em abril de 1957 gravaria uma nova versão dessa mesma canção, dessa vez para fazer parte da trilha de outro filme dele, "Jailhouse Rock" (o prisioneiro do rock, 1957). Não há grandes diferenças entre as duas versões, apenas uma nova introdução de piano abrindo a versão de "Jailhouse Rock". Difícil explicar o porquê desta canção ter sido incluída novamente em outra trilha sonora e em outro filme. De qualquer forma fica o registro de Elvis em duas ocasiões diversas de sua carreira interpretando a mesma canção.

HAVE I TOLD YOU LATELY THAT I LOVE YOU (Weisman) - Outra canção com toques de música country! Chega a ser impressionante a quantidade de takes alternativos dessa música, o que mostra as dificuldades de se chegar a uma versão satisfatória. O CD "Stereo 57 - Essential Elvis Vol. 2" por exemplo traz várias das tentativas de Elvis. Outra canção que não faz parte dos trabalho de "Loving You", sendo gravada no dia 19 de janeiro de 1957 em Los Angeles. Nessa mesma noite Elvis, muito inspirado por sinal, conseguiu também chegar na versões definitivas de "Blueberry Hill" e "Is It So Strange", essa última sem dúvida uma das grandes baladas na voz de Elvis Presley nos anos 50. Enfim, mais uma canção que deixa registrado novamente um belo momento de seu talento.

I NEED YOU SO (Hunter) - Fechando o disco da trilha sonora de "Loving You" Elvis apresenta uma canção de um de seus compositores preferidos, Ivory Joe Hunter. Elvis sempre admirou muito Hunter, tanto que mesmo nos anos 70, ele iria gravar várias músicas dele, como "It's Still Here" e "I Will be True", ambas lançadas no LP "Elvis" de 1973. É uma música que de certa forma repete praticamente os mesmos arranjos de "Have I told you lately that I love you?" e não acrescenta muito. Isso porém não tira seus inegáveis méritos, principalmente pelo vocal inspirado de Elvis. Um bom desfecho para o terceiro LP da carreira de Elvis Presley.

Elvis Presley - Loving You (1957): Elvis Presley (vocal, violão) / Scotty Moore (guitarra) / Tiny Timbrell (guitarra) / Bill Black (baixo) / D.J. Fontana (bateria) / Dudley Brooks (piano) / Gordon Stoker (piano) / Hoyt Hawkins (piano) / The Jordanaires (acompanhamento vocal) / George Fields (harmonica) / Produzido por Steve Sholes / Arranjado por Elvis Presley e Steve Sholes / Gravado no Radio Recorders - Hollywood / Data de Gravação: 15 a 18, 21 a 22 de janeiro e 14 de fevereiro de 1957 / Data de Lançamento: julho de 1957 / Melhor posição nas charts: #1 (EUA) e #1 (UK)

Texto escrito por PABLO ALUÍSIO - Junho de 1999 / revisado e atualizado em novembro de 2001 / Reescrito em agosto de 2005.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Elvis Presley - Loving You - Sessão de Gravação

Elvis Presley - Loving You - Sessão de Gravação
Os bastidores da gravação do álbum “Loving You”, de Elvis Presley, refletem um momento decisivo na ascensão do cantor como fenômeno cultural e estrela de Hollywood. Registrado em 1957, o material foi produzido principalmente pela RCA Victor em sessões realizadas nos estúdios em Hollywood, já que o disco funcionava como trilha sonora do filme homônimo estrelado por Elvis. Esse contexto cinematográfico influenciou diretamente o repertório e a sonoridade, aproximando o rock and roll de uma estética mais polida e acessível ao grande público. Ao mesmo tempo, havia pressão comercial para consolidar Elvis não apenas como cantor rebelde, mas como artista multifacetado capaz de transitar entre o cinema, a televisão e o mercado fonográfico.

Durante as sessões, Elvis contou com músicos experientes que já o acompanhavam desde o período em Memphis, incluindo integrantes do grupo que ajudou a moldar seu estilo inicial. A convivência entre esses músicos de raízes no country, blues e gospel com a estrutura rígida de um grande estúdio de cinema criou um ambiente curioso: espontaneidade artística de um lado e controle técnico do outro. Relatos de bastidores indicam que Elvis buscava manter a energia crua de suas primeiras gravações, mesmo quando os produtores solicitavam interpretações mais suaves. Essa tensão criativa contribuiu para a mistura de baladas românticas com números mais animados, característica marcante do álbum.

Outro aspecto relevante foi a crescente influência do empresário Coronel Tom Parker nas decisões artísticas e comerciais. Parker via o filme e o disco como parte de uma estratégia integrada de marketing, planejada para ampliar a imagem pública de Elvis e garantir sucesso financeiro em múltiplas frentes. Isso significou escolhas calculadas de repertório, duração das faixas e até da forma como a voz de Elvis era apresentada nas mixagens. Embora alguns críticos posteriores tenham apontado certa perda de ousadia em comparação às gravações da Sun Records, o resultado final demonstrou enorme eficiência comercial e ajudou a consolidar o cantor como ídolo juvenil internacional.

Apesar das pressões e do ambiente altamente profissional, muitos testemunhos descrevem Elvis nos bastidores como dedicado, carismático e profundamente envolvido com a música. Ele costumava ensaiar longamente, sugerir mudanças de arranjo e interagir de forma descontraída com músicos e técnicos, criando momentos de leveza entre as gravações. Esse equilíbrio entre disciplina e espontaneidade foi fundamental para que “Loving You” alcançasse sucesso nas paradas e reforçasse a conexão emocional com o público. O álbum acabou se tornando um retrato fiel da fase em que Elvis deixava de ser apenas uma promessa do rock and roll para se firmar como uma das maiores estrelas da cultura popular do século XX.

Erick Steve. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Mulher Que eu Amo

Título no Brasil: A Mulher Que eu Amo ou Perdidos na Cidade
Título Original: Loving You
Ano de Lançamento: 1957
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Hal Kanter
Roteiro: Hal Kanter, Herbert Baker
Elenco: Elvis Presley, Lizabeth Scott, Wendell Corey, Dolores Hart, James Gleason, Ralph Dumke

Sinopse:
Um jovem entregador de caminhão com talento natural para a música é descoberto por uma agente de publicidade que decide transformá-lo em uma nova estrela do rock. À medida que a fama cresce rapidamente, ele precisa lidar com as pressões do sucesso, conflitos pessoais e o impacto da celebridade em seus relacionamentos. A história mistura romance, drama e números musicais que refletem a ascensão meteórica do rock and roll nos anos 1950.

Comentários:
Fazia muito tempo que tinha visto pela última vez. Essa semana decidi rever. Olha, é um bom filme, sem dúvida, mas já na fórmula do que viria a ser praticamente todos os filmes de Elvis Presley. A trilha sonora só aproveita as músicas do Lado A do disco, o que para mim sempre foi uma frustração. Queria cenas com Elvis cantando clássicos, como por exemplo, "Blueberry Hill". Ao invés disso o filme repete faixas menos inspiradas como "Hot Dog" e "Party", que mais se parecem com micro canções do que com músicas de verdade! Outro aspecto que me chamou a atenção é que o roteiro até tenta dar um vôo de galinha na dramaticidade, colocando o personagem de Elvis como alguém que sequer usa seu nome real. Ele teria apenas copiada o nome que viu em um túmulo. Só que essa subtrama jamais é aproveitada na história. Na época os produtores já tinham se tocado que o importante era colocar Elvis cantando algumas músicas, rebolando e se apaixonando pela mocinha. Como eu disse, já era a "fórmula Elvis de cinema" pronta para uso!

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Elvis Presley - Loving You - Elvis e Lizabeth Scott

Quando Elvis chegou em Hollywood para finalmente estrelar "Loving You", o produtor Hal Wallis o apresentou imediatamente para a atriz Lizabeth Scott. Naquela altura ela já era uma veterana das telas, tendo estreado no cinema na década de 40. Scott era uma revelação do produtor que tentou por vários anos a transformar numa estrela. Seu plano era muito simples, transformar Lizabeth Scott numa nova Elizabeth Taylor. Ambas tinham origem inglesa e um porte elegante. Desse modo  Wallis acreditava que a escalada rumo ao topo seria apenas questão de tempo. Sempre a escalando em seus filmes, ele foi tentando abrir caminho para sua protegida, mas as coisas não pareciam dar muito certo. A imprensa de Hollywood não comprou a ideia de transformar a atriz numa estrela. Lizabeth Scott poderia até se tornar uma segunda Lauren Bacall, uma versão loira da grande estrela da MGM. Porém os planos do produtor nunca deram certo. Lizabeth Scott assim acabou sendo apenas uma boa atriz, uma coadjuvante interessante para bons filmes.

Em 1957 ela foi escolhida para fazer parte do elenco de "Loving You" (A Mulher que eu amo, no Brasil). Esse seria o segundo filme estrelado por Elvis Presley. Hollywood apostava no cantor para ele se tornar uma espécie de "Novo James Dean". Lizabeth Scott seria uma atriz mais experiente em um elenco com muitos jovens, inclusive Elvis e Dolores Hart. O produtor Hal Wallis acreditava que o casal formado por Elvis e Dolores era muito jovem e inexperiente, sem condições de levar um filme daquele porte sozinhos. Era precisa alguém com mais experiência por perto. Lizabeth Scott iria cumprir justamente essa função.

Assim Lizabeth vinha para contrabalancear a inexperiência do casal principal e trazer um pouco mais de conteúdo dramático nas cenas. Logo no começo das filmagens ela percebeu que iria se dar bem com Elvis. Numa primeira impressão ela chegou a pensar que ele poderia sofrer de algum estrelismo por causa de seu sucesso como cantor, mas isso não aconteceu. Elvis sempre pareceu prestativo e atento em suas dicas de interpretação. Ao invés de se comportar como um arrogante, Elvis foi inteligente e procurou aprender com a atriz, que sempre surgia dando palpites e dicas para ele. Entre uma cena e outra Lizabeth ensaiava com Elvis as falas, a postura, a forma de agir diante das câmeras. De fato ela acabou se tornando uma professora de atuação para Elvis durante as filmagens, uma vez que ele nunca havia estudado teatro ou qualquer outro curso para atuar bem.

As filmagens foram tranquilas, sem sobressaltos. Se dentro do set tudo corria em paz, fora dele as coisas eram bem mais complicadas. Na época Lizabeth Scott tinha que lidar com muitos problemas, inclusive em sua vida pessoal. Havia uma série de boatos afirmando que na verdade ela era lésbica. Dentro do meio cinematográfico sua suposta homossexualidade já era bem conhecida. Ela seria assim uma das mais famosas lésbicas de Hollywood na era clássica. A grande preocupação era que esse seu segredo fosse divulgado ao grande público o que arruinaria sua reputação e carreira. Revistas de escândalos como a Confidential estavam no pé da atriz durante as filmagens de "Loving You". A comunidade de Hollywood sempre procurava se proteger sobre isso, respeitando a orientação sexual homossexual de seus membros, mas a imprensa não. Muitos jornalistas queriam o escândalo para vende jornais e revistas.

Hal Wallis sabia dos riscos, mas resolveu apoiar sua atriz. Havia sempre uma tensão no ar quando um novo número da revista sensacionalista chegava nas bancas. A ansiedade e o medo parecem ter sido decisivos para uma decisão radical tomada pela atriz após as conclusões das filmagens. Assim que o diretor gritou "corta" pela última vez, ela se reuniu com Wallis nos camarins e lhe comunicou que era o fim. Não mais atuaria no cinema, estava farda de tanta pressão e tensão. Ela não queria mais ser pressionada, nem ser alvo de fofocas. Queria viver sua vida privada em paz, ser feliz acima de tudo. Lizabeth simplesmente se encheu de tudo e todos e partiu para uma vida reclusa, longe dos holofotes. Não queria sofrer aquele tipo de constrangimento.

De fato ela só retornaria às telas uma única vez em 1972 para uma pequena participação em um filme de um amigo. Fora isso decretou adeus a Hollywood com esse filme de Elvis. Para os fãs do cantor só restou o agradecimento. Assistindo ao filme hoje em dia, podemos perceber nitidamente a importância de Lizabeth Scott na produção. As cenas mais fortes, do ponto de vista dramático, pertencem a ela. Sua experiência e ótima presença cênica fizeram toda a diferença do mundo no resultado final. Elvis e Dolores Hart eram dois jovens inexperientes perto da longa caminhada que Scott já vinha trilhando. Caminho esse que ela resolveu abandonar após as filmagens de seu primeiro e único filme ao lado de Elvis Presley. Um adeus marcante de uma atriz talentosa que nunca chegou ao estrelado, mas que deixou sua marca registrada em vários filmes durante sua conturbada carreira.

Pablo Aluísio.